Em busca de ladrilhos

           “Aí eu comprei 30 mil cervejas e todo mundo…”.Ouvida em frente à parte externa do viaduto Santa Tereza,  essa história não teve final. Ao menos, não para mim.  Pronunciada enquanto eu mastigava um pedaço de pão com manteiga na frente do Teatro espanca! enquanto Macaxeira tentava trocar um café de Jesus por uma cerveja, a frase fazia parte do caso que uma mulher sentada próxima ao um ponto de ônibus contava a alguns amigos.

      Como eu disse, a história não teve fim para mim. Talvez, para outros que ali permaneceram, as trinta mil cervejas obtiveram outros significados e continuações.  Como bem demonstra a história de Macaxeira em “Se essa rua fosse minha – um solo de Macaxeira”, escrita e dirigida por Juliana Pautilla, há algo sobre a compreensão da rua que ultrapassa o tempo de passagem. É preciso permanecer na rua para, ao menos, construir palcos de improviso e representar personagens.

        O universo de Macaxeira não pode ser compreendido apenas pelo visível aos olhos.  Desde a cenografia e figurino do espetáculo até a presença do personagem Mandioca que nunca se materializa, a peça é um exercício de reapropriação e ressignificação de objetos e afetos. A protagonista afirma, por exemplo, que seria impossível amassar as latinhas que recolhe pela rua para entregá-las a reciclagem, uma vez que isso danificaria o pouco que tinha. Há, também, o pedido  de limpeza a uma mancha que,  não visível , não pode ser limpa pela água da senhora que visita Macaxeira para cuidar de sua higiene como gesto de caridade e devoção cristã.  É preciso ver a pele não presente na superfície.

     A poética da realidade de Macaxeira constrói-se por elementos que não se circunscrevem ao palco. Em grande parte do espetáculo, a porta do teatro está entreaberta. A plateia experimenta ser também observada por todos aqueles que transitam pelo baixo centro no momento do espetáculo e olham confusos para dentro do teatro.  A realidade e a ficção possuem, assim, fronteiras tênues.  Nos momentos em que Macaxeira deixa o palco e vai em direção ao Viaduto Santa Tereza até não poder ser mais vista pelos que permanecem sentados na plateia,  o espanto que se manifesta nos espectadores codifica  o olhar concedido aos que vivem na rua. Se Macaxeira desaparece por alguns instantes e desperta a dúvida se é necessário segui-la para continuá-la vendo, a observação dos que vivem permanentemente na rua é ainda mais frágil. É preciso transitar pelo centro urbano e viver a imprevisibilidade da rua para conhecê-los. A representação não modifica o cerne de realidade. Como afirma Macaxeira, mesmo quando ela corporifica o personagem da Estátua da Liberdade, permanece sendo Macaxeira.

       Dialogando com o universo shakespeariano, o espetáculo confirma uma das próprias opiniões de Macaxeira sobre Shakespeare. Segundo a personagem, o contato com a obra de Shakespeare desperta verdades que permanecem ecoando mentalmente. De forma semelhante, a experiência de “Se essa rua fosse minha – um solo de Macaxeira” não se finda após pelo espetáculo. Pelo contrário, permanece viva nas ruas que se cruzam ao deixar o teatro e se tornam palcos a serem observados na redescoberta de outros universos reais e imaginários.

Sobre:

Se essa rua fosse minha, um solo de Macaxeira
Atuação: Denise Leal
Participações especiais: Dona Clara Freitas e Halysson Felix 
Direção e dramaturgia: Juliana Pautilla
19 de fevereiro a 8 de março, qui a dom, às 21h.
Teatro espanca! – Rua Aarão Reis, 542, Centro/BH

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