Chuva, esperança e vitória

         Chegando em casa depois de um dia quando chegar ao destino final parecia uma tarefa impossível, outra dificuldade colocava-se em evidência. Como poderia eu, depois de ter atolado em lama e ainda carregando uma camada de oito centímetros de barro, entrar em casa sem levar comigo uma percentagem física do bloco filhos de Tchá Tchá? Naquele momento, acabei me lembrando que carregava ainda um saquinho em que levara frutas para o bloco mais cedo e pude guardar os calçados antes de entrar em casa.

        O alívio imediato e momentâneo de ter evitado sujar o corredor do espaço que divido com outras pessoas trouxe, no entanto, outros dilemas. Depois de ter vivido, nas Ocupações Esperança e Vitória,  a experiência de bloco carnavalesca mais intensa de minha trajetória, apareceu a dúvida: e, nos dias que irão se seguir, onde poderei guardar toda a experiência e aprendizagem vivenciadas em quatros quilômetros de alegria, companheirismo, lama e cerveja? Como eu poderia apenas evitar que o barro não permanecesse em meus pés e em minha rotina, enquanto muitos que riram comigo durante a última tarde teriam sempre rios de lama como quintal? Como se torna possível apenas viver alguns momentos de suspensão e aventura, enquanto todos os rostos anônimos desse dia vivem em situação perene de imprevisibilidade e dúvida? Como é possível simplesmente voltar a casa pelo ônibus e caminho de sempre depois de ter tido o favor de pessoas que mal sei o nome, mas me possibilitaram a carona mais musical e divertida dos últimos tempos no Tarifa Zero?

        Tantas questões, afinal, talvez me guiem para algo presente na essência do carnaval: a possibilidade de escolher outros personagens, identidades, cores e comportamentos que, ao permitirem outra existência, criam pequenos espaços para olhar, com distanciamento, para nós mesmos. Eu que, segundo minha amiga, parecia fantasiada de “gringa” hoje por portar um chapéu de aba larga e uma máquina fotográfica, percebi-me imersa em uma realidade onde, ao final, bem pouco importava quaisquer imagens que eu poderia produzir sobre o Bloco Filhos de Tchá Tchá ou sobre as pessoas e a vida das ocupações Isidora. Enquanto o bloco percorria as ruelas locais de terra e foi, depois de tantos dias de sol e calor, inesperadamente atingido por chuva forte e demorada, outras necessidades e descobertas surgiram. Eu, que reclamara tanto de não mais conseguir suportar as queimaduras de sol dos outros dias de carnaval,  deparei-me com apertos para conseguir evitar que todo meu equipamento fotográfico sem bolsa própria para protegê-lo se estragasse e, também, que eu e meus amigos conseguíssemos atravessar todo os rios de lama e as ladeiras cujas direções finais desconhecíamos.

         Entre lama, samba, suor, marchinha, chuva e cerveja,  muitas necessidades, objetivos e afetos distantes dos inicialmente esperados surgidos. Ao ver como eu me desesperava, uma amiga me ajudou a usar uma caixa de isopor de uma foliã que eu acabara de conhecer como proteção para a câmera. Outros amigos me estenderam os ombros e evitaram que, tantas vezes, eu não escorregasse e quebrasse o pé. Outros tantos que nunca havia visto e talvez nunca os reveja, criaram redes de companheirismo momentâneas ao pedir um alfinete ou agulha para retirar o espinho verde das mãos. Outros tantos ignoraram mesmo a bateria do bloco e entoaram Nelson Cavaquinho e todo juízo final para reacender a esperança que, mesmo em meio a tanta tempestade, o sol haveria de brilhar outra vez. E, com resistência admirável, a bateria soava distante, ininterrupta e prosseguia guiando aos que a seguiam com confiança. E confirmando, talvez, porque tantos dizem que cada tambor é também uma batida do coração.

        Depois de algum atraso, conseguimos chegar à praça final do percurso do bloco. Com os músculos cansados e com a mente exausta depois da tensão de não saber se conseguiríamos prosseguir, deparamo-nos com uma praça cuja ambiência talvez ilustrasse o porquê dos nomes das ocupações. No lado direito, lia-se um tapume com o seguinte dito pintado em vermelho: “A nossa luta vale mais que ouro em pó”. No palco do meio, um líder local cantava com o microfone e quase regia a bateria que ali chegara. Em outros cantos, algumas pessoas da comunidade traziam tropeiro e cachorro-quente quando parecia muito difícil encontrar o alimento. Ou mesmo entender qual era o tipo de fome que se instalava. E, por todos os lados, tantos e tantos amigos dançando do jeito mais livre que eu já os vira, mesmo estando sujos de barro, cansados ou machucados.  No entanto, mesmo que pequena, estava lá a vitória que tivemos ao vencer dificuldades passageiras no território onde tantos moradores vivem-nas diariamente. Vitória conseguida por ter a esperança e o apoio necessário de todos que, ao nosso lado, seguiram lutando. Fosse contra a chuva, pelo direito a moradia ou mesmo para conseguir acompanhar, mais uma voz, o toque de cada marchinha.

       Voltando para a casa para de metrô, encontrei com tantos que voltavam de blocos distintos que acontecerem no mesmo dia na cidade. Alguns deles reclamavam que, naquele dia, não era feriado oficial, mas os transportes públicos funcionavam com horários reduzidos. Diante dessa insatisfação, lembrei-me de todos aqueles da região de Isidoro onde é mais difícil a chegada do transporte. Eu, quem sempre morei um pouco longe das pessoas e lugares que gosto, não tinha muito do que reclamar. Suja de lama, suor e tinta, só poderia agradecer a toda experiência proporcionada pelo carnaval de luta e rua de Belo Horizonte. Exausta, voltava para casa sabendo ser essa festa não a possibilidade de enfrentar e esvair os limites do corpo, mas, pelo contrário, conhecê-los e cuidá-los para que possam ser maiores que mim. Para que possam, como as crianças que me juraram ser os super-heróis das cores da tinta guache que carregavam no corpo, ser um pouco diferente do esperado para mim mesma. E lembrar que, se nossos irmãos carregam cores e brilhos, não há nada a temer.

RUA E LUTA

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