Soleira

Não se circunscrevem limites.
Não por acaso, avistar o mar
é crer no horizonte em risco.
Não carrego nada nos bolsos:

a noite nos trouxe água,
o cansaço ensinou ternura.
É o tempo dos papeis brancos
desprendidos de construções.

Quebramos os copos. A sede
não se satisfaz em colheitas.
São nossas as luas miúdas,
são nossos os lugares menores.

Ainda não sabemos cantar:
guardamos um verso inescrito,
pisamos com pés descalços,
e evitamos o nome da aurora.

soleira

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Soleira

Para que se carregue água nos dedos

     Havia o medo, a espera, as roupas reviradas, a escolha. Do lado da rua, porém, alguém vendia flores embaladas em vasos de plásticos. Ainda que circunscritas ao adorno e ao consumo, por ali havia flores. Desde que se mudara, aquele era um dos poucos bairros onde ainda era possível encontrar pessoas vendendo girassóis, ainda quando fosse muito tarde, quando fosse noite. Passava por ali e se intrigava sempre. Como aquilo era possível?Para onde apontavam os girassóis quando a luz já estava baixa, o sol se fora, e o pouco que irradiava era o brilho de estrelas sem matéria? Deve ser como funciona com a gente, pensou. Quando o sol já foi embora e amanhã é distante, permanecemos com olhos e membros abertos, direcionados à lembrança possível e recorrente do sol.

    Naquele bairro, habitara pouco, muito pouco. Como o gesto de um homem que, na água fria do mar, mergulha rápido, para que não lhe abandonem a coragem, a sensibilidade da pele arrepiada, esse gesto de querer adentrar em tudo que é vivo e navegável. Três meses depois, porém, voltava àquele bairro. Obra dos mistérios inacabados, provavelmente. Mas não era só isso. Não foi só isso. Voltar àquela esquina depois que a vida se endurecera tanto era uma aposta brilhante nos dias possíveis. Um desenho antigo guardado no bolso, uma oferta gasta que, ao andar na rua, recebera de um vendedor que existia entre a astúcia e o cansaço.

  Ainda era muito difícil encarar aqueles olhos. Nos últimos anos, houve muitas estratégias, diferenças e perdas. Algumas táticas persistiam. Fabular estratégias laterais, pontos de fuga, focar em pontos de madeira. Tentava, porém, se esforçar. Quando não tinha nenhuma habilidade, aprendeu a fazer acrobacias, tensionar os músculos, fixar íris em rostos sem nome. No entanto, mesmo essa coragem e abertura generosas com passagens fortuitas encontravam os seus limites. Aquele olhar era o dos mais difíceis de sustentar. Talvez porque funcionasse como os dela. Translúcidos e opacos, dois refletores antes do mundo que se passava por dentro que do universo irresoluto e de chagas do mundo de fora. Era preciso outra artilharia, fabricar gestos, armar batalhas para enxergar aqueles olhos.

    Sabia que era ele. Tantas coisas se transformaram. Aprendera agora o silêncio dos pássaros pequenos, o desgosto ao ouvir o agudo dos corvos. Pouco a razão lhe ensinara. Ajudara a muitos. Por algumas cidades e ilhas, viu que a escuta e o verbo eram mais precisos que o gesto e o corpo. Apreendera as mãos vazias, o amor sem objetos, as técnicas para escavar em terras úmidas. A dificuldade era maior na chuva. Com a sede saciada, perdia-se algo que falta e aponta para os dedos gastos e caminhadores.

     Bem poucas vezes aquilo aconteceu. Diante do desconhecido, quatro sinais apontavam para um encontro onde talvez a palavra apenas silenciasse algo despertado pelos corpos. Do lado dele, a juventude não se encerraria. Envelhecera, de fato. No entanto, havia algo propício aos conhecedores das formas e grãos da terra. Ainda fabricavam mundos outros. Tinham o corpo marcado: até ali, tinham perdido muito. Nenhuma forma, porém, seria, capaz de abrigar o que acaso contornava.

    Era tarde. Com os membros próximos, apenas se abrigaram com a alegria e generosidade dos que sabiam ser impossível prosseguir. Ela chegara tarde. Ainda que movente, a vida se recolhia sob pilares e escolhas irrevogáveis. Alguns peixes morrem na oscilação das marés, pensou. Precisava partir. Do outro lado, o tempo estava moldado, o balanço permitido. No entanto, aquela noite prosseguia. Prosseguiria por anos, interrompida e inscrita em fábulas e histórias. Há fluxos entre a esperança e o medo. Entre o possível e o sonho. Entre a flor e a seta.

sanibel island dark

Para que se carregue água nos dedos

Fechados para reformas internas

      Andando de ônibus pelo centro do Rio de Janeiro, há duas semanas, vi um caçamba perdida em uma esquina. Passei muito rápido por ela, como tenho passado muito rápido por tudo, como ainda é difícil parar diante dessas correntes, sentar, fotografar em um gesto ainda de querer alguma permanência. Nos quatro cantos laterais dessa caçamba, não havia qualquer marca sobre alguma empresa fornecedora de soluções para entulhos, depósitos, reformas, construções. Isoladamente, havia apenas escrito, nos quatro cantos, “23”. “23”, dois algarismos e um número, silenciosos nos quatro cantos laterais do objeto. Curioso como, a essa altura, ainda parece que é o acaso e a vida mesma os instrumentos capazes de qualquer resposta ou conselho. Que bom perceber que não sou só eu que faço dos 23 todo espaço para reformas internas. Olhando para fora, porém, vi homens que sabiam que os 23 não deveriam ser apenas qualquer lugar para se depositar o que não mais possui utilidade ou progresso. Para aqueles homens, os 23 também eram um espaço para guardar cimento, tijolos, cerâmica e argamassa a fim de que outras vidas fossem possíveis. Enquanto demoliam, também mediam arestas e planejavam alicerces.

     Aqui, coberta de escombros e poeira, percebo que ainda é preciso desenvolver qualquer habilidade para a construção. Tenho certeza que já destruí o mundo. Levantei as bandeiras, pintei os cabelos, ergui as palavras, impossibilitei o amor, perdi todas as fronteiras, cheguei a este espaço em que é preciso justificar tudo. Com camadas de sangue seco sobre a pele, percebo, agora, a realidade apenas como as roupas que persisto em estender apesar do frio, apesar do cansaço, apesar das situações em que eu não soube escolher com sabedoria e propriedade. Ainda sim, sei que são precisos versos cansados, uma canção para os ausentes, alguma promessa e um cigarro que pegamos emprestados dos amigos que, como nós, sabem tão pouco.

     O tempo vencerá por nós e trará, silencioso, a redenção de quando será impossível discutir qualquer afeto, travessia ou promessa. Não temos muitas escolhas. A fuga nos é impossível. As salas que deixamos apressados, a memória incompleta, nenhuma coragem. Agora, saímos para comprar flores nas ruas, sempre perguntam se são endereçadas às nossas mães, questionam se somos mães. Chamam-nos de senhoras, comprarmos algum amuleto para materializar a fé. Mas não é mais nos possível prosseguir como errantes. O período das viagens se cessou como o olhar para trás. Os solitários erram menos e seguem atentos. Endereçar paisagens ou cuidados nos permite encrudescer alguma nobreza na forma de viver, aprender a ter em cada gesto a densidade de escutar o que não conseguimos dizer. É tempo de escolher andar de mãos dadas com companheiros quem também seguem com visadas rasteiras, mas preferem a calma da vida vivida. Difícil dizer onde descansaremos, encontraremos a casa, partilharemos o queijo e não mais teremos medo. Porém, temos em nós a planta e habilidades para conjugar azulejos de tempos distintos. Não nos desgastaremos muito: também sobre destroços, podemos perceber a resistência e a tensão da pedra.

reforma final

Fechados para reformas internas

Como também se desdobram os metais pesados

Mas era que ela trabalhava com aquilo. Com aquele ofício. Aquele. Não era outro. Era aquele, muito específico, que permitia aos outros a vida. Quando me disse, eu achei bem que se tratava de uma parteira. Dessas bem espertas, que habitam as casas do interior. Ela riu de um jeito tímido e disse que não. Era do tipo de gente que permitia a continuidade da vida de gente crescida. Vez ou outra, aparecia alguma criança ou bebê. Mas até eles pareciam gente crescida.  Assim, gente grande, dotada de muita força e serenidade para enfrentar o grande mundo.

Eu achava aquilo tudo muito bonito. Tive sempre problemas ao ver sangue ou mesmo ao cortar o dedo ao ver alguém cozinhar. O que ela me dizia parecia um milagre que chegava tarde, que talvez pudesse ter mudado essa minha rotina que envolvia todos esse números que pareciam mesmo se embolarem com as notícias todas dos jornais que eu nunca lia.

Ela, muito paciente, explicava dos materiais apropriados. Aquele metal específico, um pedaço de titânio. Tinha outros detalhes também. Os esmaltes eram proibidos. É, porque se alguma lasca se soltasse, se alguma parte daquele desses esmaltes carmim que dão muito trabalho para tirar, que essas mulheres modernas e corridas vivem perdendo em vasilhas, poderia significar a morte.

Nunca imaginara que pudesse ser assim tão complexo se fabricar algo que ajustasse a válvula para o coração. É que ele parece ser tão resistente e maleável. Assim, parece que tudo o atravessa. Todos os líquidos necessários ao nosso corpo, tudo que nos alegra, tudo que nos entristece.

Eu pensava muito sobre aquilo. Como era possível a um coração sempre forçado a resistir como ferro apresentar tanta resistência aos materiais que permitiriam que ele continuasse a bater.

Ela ria muito e disse que era assim. Que, ao final, as válvulas para o coração não poderia ser de qualquer metal bruto. E eu que estava tão assustado, ainda tinha tempo para alterar algumas esperanças antes que meu corpo precisasse de válvulas.

Como também se desdobram os metais pesados

Tatuagem

Há alguns mares não navegáveis.
À beira do caos, inventamos ilhas:
são quatro os nomes do corpo,
duas escolhas ao avesso e gastas

como nós, que sabemos nadar,
mas hesitamos próximos às ondas.
Do lado esquerdo, castelos de areia
teimam em resistir entre pó e sal.

Há  viagens que não se encerram,
conquanto não levemos caixa ou flor
e percamos os brincos e o delírio
nos nomes destinados ao progresso.

Onde anda aos ombros? Âncoras
que desenhamos nos pés oxidam.
Não há mais a descoberta e o risco:
quietos, aceitamos os limites do tempo.

tatuagemfinal

Tatuagem

Ilha da boa viagem

Saio para comprar flores.
Há quatro cartas marcadas:
como curingas, este é o jogo
outra vez de sorte e astúcia

impossível aos delicados.
O mundo nos atravessa,
a doença nos atinge, a fome
não se cerca ao trigo e ao sol.

O próprio amor se pune mudo
e não é possível arriscamos
canções e membros distendidos.
Nesta cidade, restrinjamos linhas:

há o silêncio paciente dos velhos,
saias curtas apesar da pele espessa,
a empatia pelos errantes e solitários
e versos para náufragos e afogados.
ribeirao ilha

Ilha da boa viagem

Notas de um carnaval qualquer ou como cultivar plantas em vasos de plástico

          Em “Invenção de Orfeu”,  Jorge de Lima escreve e alerta-nos: “Há sempre um copo de mar para um homem navegar”. Movida pela crença na esperança em terras em que ondas e costa sejam impossíveis, mas não cessem o movimento próprio dos homens em barcos, esse verso talvez nos ajude a entender como se constituem e reverberam as cenas de “Urgente”. Sob um desabamento anunciado antes mesmo que saibamos os limites e fronteiras dos pequenos ambientes aos quais somos expostos, notamos que não há qualquer espaço para correntes, mergulhos, conchas ou peixes. Atravessada pelo caráter impositivo do tempo contemporâneo que nos atropela e impede a existência trajetórias pessoais que resistam à uma balança e medida racionais,  a vida ali se esforça para que, nos beirais das janelas escassas, ainda seja possível a persistência, a invenção e o afeto em mares fabulados em espaços que sufocam.

         “Urgente” se constrói, recupera e lembra os gestos simples. Diante das sirenes e do cronômetro que são o peso inexorável da realidade cuja fuga é impossível, a peça retoma o que é ainda inventado pelo alcance das mãos: organizar arquivos, armar-se de regadores, construir gêmeos de papel, mudar, costurar roupas que não as nossas, observar travessias para que a coragem mesmo de continuar nasça. A comunalidade que une os personagens é, pelas ironias dos hábitos que nos encerram em rotinas cada vez mais auto-centradas, possível apenas quando as trajetórias e as questões irresolutas, amontoada pelos anos, tornam-se o reconhecimento que o envelhecimento atravessa a todos. Podemos, ainda, cantar um samba baixinho, aprender a sobreviver colorindo a solidão com móbiles e aniversários de canções gravadas, dizer a nós mesmo que o tempo para resgatar a memória da mãe é sempre bem menor que o amor, o amor que nos complexifica, que não pode caber. A busca por ultrapassar os limites é um dos poucos gestos revolucionários que ainda resta. Um dos personagens anuncia que a passagem por ali é temporária: há o sonho do resort. É preciso ser maior que o corpo, alimentar a vida, desejar um filho.  É preciso sonhar para que isso nos conforte. É preciso poder, ainda, ter o sonho de viver a fantasia do carnaval e a alegria que nos descanse de uma vida ordinária e corriqueira em que a mais dura tarefa seja amanhecer, todas as manhãs, sendo ainda a pessoa que nos acompanha desde o nascimento. A pessoa que nos olha com 50, embora nossos sonhos de euforia sejam ainda dos meninos de cinco, dez anos que imitam trios elétricos como o momento em que a identidade – e a culpa e responsabilidade que trazem – podiam se diluir entre a beleza e a partilha.  É preciso conseguir que os pianos abandonados por falta de espaço na vida que se abriga em apartamentos pequenos e práticos não se silenciem. É ainda preciso recorrer à música alta.

          Se a urgência e a vida que já foi – e a opacidade daquilo que virá – são atravessados pelo trabalho, ali vemos que o que é produzido e ganho não apaziguam a angústia que perpassa os que estão ali. O dinheiro é como essas sementes árduas que, jogadas ao solo, não o penetram, fecundam-no ou crescem em troncos vistosos onde será possível ter sombra e descanso. Apenas rebatem no chão, tilintam, ecoam como estilhaços.  É por meio do dinheiro, porém, que é possível ver a luz, que as rachaduras não mais se escondem,  que o gesto de reconstituir migalhas não nos alcança de forma estranha ou redutora.  Jogado ao chão, o dinheiro brilha, irradia a beleza de um carnaval de Mestre Sala simples, portando vassouras,  em que se reconhece a importância da alegria antes que a doença e o inevitável cheguem. Perto do que desaba e dos anos que conduzem às comemorações solitárias, é somente pela euforia que temos a tensão e os pontos de virada em que a viver não seja apenas a revisão do que já foi ou se baseie na espera angustiada pelo que será.

             Ao observar todos, encontramos Antônio, que se apresenta abertamente, conta-nos a sua história, explica-nos o que se passa. Antônio somos nós  – e não o somos, pelo mistério do que ele não sabe – próximos à arte, ao teatro, às perdas, aos medos, às reinvenções das narrativas de si. Testemunha distanciada do tempo e das suas histórias, Antônio é a esperança da vida que ainda não precisa encerrar-se porque o tempo dos homens – e de cada um – não pode ainda se cercear aos cômodos e ao que vivido. É o tempo sereno das rachaduras e dos desabamentos em que, vencidos pelo cansaço das batalhas exaustivas, agora podemos ter pouco, carregar apenas baldes velhos para catar moedas sem valor e se desnudar encontrando ator e personagem em palcos onde o olhar do outro é, também, o olhar de si acumulado (e resistente) ao tempo.

URGENTE

Foto: Carol Thusek

Arte: Estúdio Lampejo

Notas de um carnaval qualquer ou como cultivar plantas em vasos de plástico